

A pandemia da COVID-19 foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da nossa história recente. Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada sobre uma série de casos de pneumonia na cidade de Wuhan, província de Hubei, na República Popular da China. Não mais do que uma semana depois, em 7 de janeiro de 2020, as autoridades chinesas confirmaram a identificação de um novo tipo de coronavírus.
Cinco anos após o primeiro caso de covid-19, o mundo ainda sente os efeitos da última pandemia. No Brasil, graças à chegada das vacinas e aos esforços das equipes preventivas, o país apresenta hoje os menores números de casos e óbitos.
Em 2024, as secretarias estaduais de saúde notificaram 862.680 casos, uma redução de 54,1% em comparação com 2023, quando foram notificados 1.879.583 casos; e de 93,8% em comparação com 2022.
No Hospital do Círculo, essa fase foi marcada por medo, incertezas, perdas e também por união, coragem e muita superação. Para contar um pouco dessa história não apenas de superação, mas também de aprendizado, conversamos com Isabel Cristina de Souza, Diretora de Operações em Saúde do Círculo.
Em seu depoimento, ela relembra um pouco de tudo o que as equipes enfrentaram, e como conseguiram seguir em frente:
“Falar sobre esse período me emociona muito. Foi um tempo muito triste, mas também de muita superação, que hoje nos permite contar essa história.”
No começo, era difícil acreditar no que estava acontecendo. Segundo Isabel, a sensação era de estar preso em um pesadelo:
“Tudo parecia confuso e distante, até que os primeiros casos chegaram ao Brasil, e a realidade bateu à nossa porta. Ninguém acreditava no que estava por vir. Parecia um filme de terror, um pesadelo do qual todos acordariam em algum momento. Algumas pessoas demoraram muito para entender a gravidade da situação, e algumas perderam a vida por isso.”
Com o avanço da pandemia, o hospital precisou agir rápido. O primeiro passo foi reorganizar a estrutura e garantir que todos estivessem preparados, mesmo sem ter todas as respostas. O desafio era encorajar os profissionais da saúde a se manterem confiantes e à frente do atendimento, num momento de extrema insegurança.
“Estávamos todos muito expostos e sem saber o que nos esperava”, explica.
Uma das decisões mais importantes foi separar fisicamente o atendimento de pacientes com COVID dos demais casos. Com isso, foi possível evitar infecções cruzadas e manter a assistência a outras patologias.
“Dividimos o hospital em dois: um bloco para pacientes com COVID e outro para os demais. Essa estrutura nos garantiu baixos índices de infecção cruzada”, explica Isabel.
Além da organização interna, o hospital também se uniu a outras instituições e ao poder público para pensar estratégias conjuntas e orientar a população. “Criamos comitês internos e participamos de comitês externos com outros hospitais, a secretaria de saúde, entidades de classe e a imprensa. Era fundamental falar com clareza e orientar as pessoas sobre o que estava acontecendo.”
Ao mesmo tempo em que cuidavam dos pacientes, os profissionais da saúde também precisavam de cuidado. As jornadas eram longas, a pressão era enorme e o medo, constante. Por isso, o apoio emocional se tornou parte essencial da rotina.
“Fizemos um trabalho intenso com nossas equipes e suas famílias para cuidar da saúde mental. As jornadas eram de 18, 24 até 36 horas. E ainda havia a dor de lidar com tantas perdas.”
A pandemia trouxe, além da doença, o distanciamento social. A ausência de contato físico e das despedidas presenciais tornou tudo ainda mais difícil.
“Vivemos a dura realidade da falta do abraço, da proximidade, do sorriso. As despedidas eram feitas por vídeo, sem toque, sem a última palavra”, relembra Isabel. “A alternativa foi criar formas diferentes de humanizar as relações. O ‘abraço isolado’ e o ‘correio da gratidão’ foram maneiras de mostrar que, mesmo distantes, ainda podíamos estar presentes.”
Em meio a tantas perdas e incertezas, houve também conquistas que marcaram esse período com esperança e orgulho. De acordo com Isabel, uma delas foi a acreditação do hospital com excelência pela ONA.
“Mesmo com tudo o que estávamos vivendo, conseguimos mobilizar o time para atender aos critérios da acreditação. Fomos acreditados com nível 3 – excelência. Isso só foi possível com o envolvimento e dedicação de todos.”
Com a chegada das primeiras vacinas, veio também um alívio — e, com ele, novos medos e dúvidas. A população estava dividida, e os profissionais da saúde continuavam na linha de frente, agora como os primeiros a serem vacinados.
“Havia muito temor por parte dos pacientes sobre os efeitos colaterais”, afirma Isabel. “Mas os profissionais da saúde foram os primeiros a receber as doses, e isso nos deu força para seguir.”
As ondas da pandemia vieram em sequência, cada uma com suas particularidades. A segunda trouxe uma surpresa dolorosa: pacientes jovens e saudáveis sendo gravemente afetados. Já a terceira voltou a impactar os mais vulneráveis, mesmo com boa parte da população vacinada.
“Vivemos em um estado constante de alerta. Cada fase exigiu uma reorganização completa do hospital e das equipes.”
Isabel conta que, mesmo quando os números da COVID começaram a cair, os impactos não acabaram. Logo surgiu uma nova demanda: pacientes que haviam adiado consultas, exames e tratamentos. Muitos chegaram em estado grave, o que aumentou a complexidade dos atendimentos.
“Começamos a enfrentar uma nova onda: pacientes muito doentes, com diagnósticos agravados por terem ficado tanto tempo sem assistência.”
O hospital também se envolveu em iniciativas de apoio a outras instituições, compartilhando recursos, fazendo doações e fortalecendo o sistema de saúde de forma coletiva. “Fizemos parte de muitos movimentos para apoiar entidades com menos recursos. Isso também foi um aprendizado importante”, relembra a diretora.
Depois de tudo, fica principalmente o aprendizado. Não apenas no Círculo, mas em tantos outros espaços, a pandemia mostrou a força do coletivo, a importância de estar preparado e, principalmente, a grandeza do cuidado humano.
Em abril de 2025, segundo dados do Painel Coronavírus, o Brasil somava 39.249.238 de casos confirmados de Covid-19, além de 715.833 óbitos. Muitos deles evitáveis.
Mais do que relembrar os momentos difíceis, é preciso também não esquecer. Especialmente no contexto da saúde, a pandemia de Covid-19 nos ensinou a importância do cuidado, dos profissionais de saúde, da vacinação e de um tratamento humanizado.
“Foi um privilégio cuidar das pessoas. Fomos fortes, resilientes e fizemos o nosso melhor. Salvamos muitas vidas e também muitas famílias”, finaliza Isabel.