

Suicídio. Uma palavra pouco falada, mas carregada de significados. O não falar sobre, entretanto, não é garantia de que a prática não é executada mundo afora.
Segundo o último relatório publicado pela OMS em 2021, a cada 45 segundos uma pessoa tira a própria vida. Isso, em números, revela algo como 703 mil suicídios por ano, em média.
Considerado um problema de saúde pública mundial, o comportamento suicida pode estar mais perto do que pensamos. Para cada pessoa que decide dar um ponto final a sua vida, 135 pessoas são afetadas, entre familiares, amigos, colegas de trabalho ou de escola/faculdade. Ou seja: cerca de 108 milhões são afetadas diretamente quando alguém ligada a elas se suicida.
Para quem já vivenciou a dor do luto sabe das emoções acerca do fato. E por consequência pode experimentar do mesmo comportamento suicida.
Além destes dados alarmantes, há outro ainda mais chocante: para cada suicídio consumado, 25 pessoas ao menos tentaram dar fim a sua vida.
Debater o tema é necessário, visto sua gravidade – tanto em dados quanto pela prática em si. Porém, o que deve ser pensado é a forma de como isto será trazido ao público. A exposição de cartas suicidas, de artigos envolvidos no ato, ou até mesmo fotos, vídeos e local pode representar um gatilho àqueles que têm pensamentos acerca da ação.
Mas como chegar ao assunto de forma educativa e efetiva?
Ao longo de nossas vidas nos deparamos com problemas, provações, provocações. Somente recomendar “segue em frente” ou “você consegue” não é o suficiente. Muitas pessoas que recorrem ao suicídio, seja por qual motivo for – ou ainda, sem motivos – não comentam sobre o assunto. É algo silencioso e dolorido, por vezes escondido dos olhares de quem está de fora.
Por ser um comportamento sem voz ou indícios, ele choca. Primeiro habita a mente, depois se manifesta no corpo, com ações ou palavras alusivas, tentativas ou o ato consumado.
Lidar com o dia a dia é difícil, como falado no início deste trecho. Para quem tem algum tipo de distúrbio mental e/ou comportamento suicida essa rotina já não é mais complicada, é um fardo, onde não há perspectivas de melhora. É um pensamento gélido que habita a alma.
De acordo com dados revelados pelo Ministério da Saúde, cerca de 12 mil suicídios são registrados todos os anos no Brasil. Os casos vêm crescendo, principalmente, entre os jovens. Além disso, 96,8% dos casos registrados tinham relação com transtornos mentais – depressão, transtorno bipolar e abuso de substâncias.
Saúde mental não é apenas para aqueles que estão adoecidos mentalmente; ela é para todos, inclusive para você que lê este texto neste exato momento.
Falar sobre suicídio após alguém cometê-lo, seja alguém próximo ou ainda alguém famoso, não é nem nunca foi o ideal. A pergunta que fica é: quais os caminhos que levaram a este ato?
Muitas são as respostas possíveis, por isso o enfrentamento não deve ser do pós, mas do pré. Se temos com nossos filhos conversas sobre drogas, sexo e temas considerados tabus, por que não abordar o suicídio?
Antes que pensemos em deixar de lado para não provocar, lembre-se do que foi escrito acima: o comportamento suicida também pode ser silencioso, e inclusive, sem sinais. A abordagem, claro, precisa ser mais sutil, nunca condenatória ou que desperte desejo ou curiosidade.
Segundo o documento revelado pela OMS, entre jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de mais mortes, depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal, respectivamente.
Isto revela a importância do diálogo, da aceitação e do acolhimento. E estes passos devem fazer parte da vida de todos, sobretudo desta faixa etária, que costuma sofrer com pressões, opressões e problemas oriundos da vida escolar, parental, relacional ou do início de carreira.
Não se pode fechar os olhos e exigir inteligência emocional inata de quem nunca, ao menos, pode expor suas questões, e estas serem escutadas. Educação não é apenas 2+2, conjugação de verbos ou decoreba colegial – educação é preparo para vida, para vivê-la e para apreciá-la.
O suicídio é a válvula de escape de quem nunca foi ouvido, de quem nunca viu as possibilidades de um mundo infinito, de quem deseja fugir de algo que aparenta não ter solução. O eufemismo de “ponto final” é totalmente aceitável, mas diversas são as pontuações que podem ser aplicadas à jornada de todos nós…
Estar sozinho não é a melhor opção. Isolar alguém, também não. Dizer se tratar de “frescura”, muito menos. Ofereça-se, sem preconceitos, para falar, ouvir e auxiliar.
Ter uma rede de apoio é algo valioso, e talvez não nos bastamos por nós mesmos, necessitando de alguém para nos ajudar e nos escutar, principalmente em momentos que não conseguimos mais lidar e enfrentar. Quando nos falta força, o outro tem a vitalidade que precisamos.
A campanha setembro amarelo traz à luz debates sobre o suicídio, sendo realizada nacionalmente desde 2014, como forma de combate da prática por meio de ações, de educação e de fala.

No dia 10 do mesmo mês acontece o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a campanha ocorre durante todo o ano.
Talvez a ação mais contundente surgida nos últimos anos seja o CVV – Centro de Valorização da Vida, que presta apoio emocional e de prevenção ao comportamento suicida através do telefone 188, de e-mail ou de chat. Atendendo gratuitamente e de forma voluntária a todos que precisam de orientações e de escuta. O CVV é sigiloso, e funciona todos os dias da semana, 24 horas por dia.
Vale ressaltar que as discussões sobre o suicídio não devem ser feitas somente em setembro, mas, sempre. É preciso haver um esforço coletivo para que o tema seja mais debatido, tratado com maior respeito e sutileza pela mídia e pela internet, e que pais e mestres estejam preparados para estas conversas.
Tudo pode se remediar, e tudo pode se mudar, com exceção de atos irreversíveis. A fala e a escuta ativa são as melhores prevenções. Pratique isto. E caso você esteja passando por um momento assim, lembre-se: você não está só.