

Pesquisas e estudos relacionados à saúde de crianças e adolescentes deixam evidente que nos últimos anos houve um aumento significativo nos casos de obesidade infantil, não só no Brasil, como no mundo. As causas desse aumento estão ligadas diretamente com a má alimentação, consumo de fast foods e pouca prática de atividade física.
“Que bebê mais fofinho… gordinho… rechonchudo…”. Essas expressões enchem (ou enchiam) os pais de alegria, pois em outros tempos eram erroneamente vistas por eles como sinais de que seus filhos estivessem saudáveis e bem alimentados. Mas até quanto ser “gordinho” é considerado um fator positivo?
O excesso de peso em crianças e adolescentes se apresenta como fator que potencializa doenças crônicas como pressão alta, por exemplo, além de contribuir para a sobrecarga nas articulações, comprometendo suas estruturas e podendo gerar problemas na postura corporal. Somando-se a isso, tem-se uma maior dificuldade para a prática de esportes e problemas relacionados à baixa autoestima.
Desta forma, a obesidade infantil tem ganhado o status de doença, devido às graves complicações à saúde do indivíduo se não for corretamente tratada. Seu tratamento exige do paciente (e da sua família) uma grande força de vontade, uma vez que, na maioria das vezes, a criança é forçada a abandonar hábitos que traz consigo desde a sua infância.
Atualmente, há um aumento na frequência dessa doença. Estimativas apontam que aproximadamente 40% das crianças e 80% dos adolescentes com problemas de excesso de peso têm maiores probabilidades de se tornarem adultos obesos. As causas para esse fenômeno estão relacionadas à uma alimentação desequilibrada, à pouca ou ausência total de atividade física e à inclusão dos novos hábitos sociais como internet, fast food e até mesmo o efeito pandemia, pelo qual estamos passando desde o início de 2020.
Em dezembro de 2019, o mundo foi surpreendido com o aparecimento, na China, de uma pneumonia grave causada por um novo tipo de coronavírus, uma infecção que se espalhou rapidamente pelos países. Foi considerada uma pandemia três meses depois e a doença recebeu o nome de COVID-19. Como em adultos, mas com menor frequência, crianças com comorbidades – doenças renais e pulmonares crônicas, malignidades, diabetes, obesidade, anemia falciforme, distúrbios imunológicos, anormalidades cromossômicas, doenças cardíacas e malformações congênitas – são mais propensas a desenvolver condições graves causadas pelo coronavírus.
Ainda não é possível explicar por que o número de crianças afetadas e suas manifestações variam de acordo com diferentes locais. Os efeitos da obesidade pediátrica na presença da COVID-19 ainda não foram adequadamente estudados e alguns dados são inferências devido à falta de um número considerável de trabalhos publicados sobre esse assunto nessa faixa etária.
Os três principais fatores de risco que vinculam a obesidade à COVID-19 demonstrados em adultos também estão presentes em crianças e adolescentes: inflamação subclínica crônica, resposta imune deficiente e doenças cardiorrespiratórias subjacentes. Praticamente todas as comorbidades encontradas em adultos podem ser observadas na infância e adolescência e a criança obesa tem respostas imunes inadequadas a outras infecções, como pneumonia bacteriana, uma complicação grave e comum da COVID-19.
Em 2020, a COVID-19 passa a integrar o panorama da saúde infantil em todo o mundo, com sérios impactos diretos e indiretos para essa população. É claro que não pretendemos com essa discussão desconsiderar a complexa situação da agenda de saúde pública infantil, na qual algumas doenças infecciosas, a desnutrição e os agravos à saúde perinatal, infelizmente, ainda ocupam espaço de destaque e concorrem com a forte presença das anomalias congênitas. Agrega-se ao cenário o desafio da vulnerabilidade social: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente, 23,4 milhões de crianças entre 0 e 14 anos de idade viviam na pobreza. As taxas de mortalidade infantil ainda são consideradas elevadas e acredita-se que somente em 2030 o Brasil alcançará o nível abaixo de 10 mortes para cada mil nascimentos, aceitável pela OMS.
O espectro da apresentação clínica na infância e adolescência é amplo e inclui uma miríade de sinais e sintomas com envolvimento de órgãos e sistemas variados, desde a forma assintomática até uma apresentação muito grave como a MIS-C, que requer hospitalização e cuidados intensivos. Os problemas referentes à alimentação se expressam no consumo, às vezes exagerado, de alimentos ricos em açúcares e gorduras, como frituras, condimentados, refrigerantes, entre outros. Associado à essa alimentação energética temos o sedentarismo, que propicia a acumulação de toda energia metabolizada dos alimentos ingeridos.
Existem casos em que a obesidade infantil está associada à predisposição genética da pessoa que, associada aos hábitos alimentares e de vida, favorece o ganho de peso. Precisamos, todos, tratar este tema com extrema relevância. Afinal, prevenir é sempre melhor que remediar.
Conteúdo produzido em parceria com Dr. Luciano Neto Santos, cirurgião bariátrico conveniado ao Círculo Saúde e diretor técnico do Centrobesi - Centro de Tratamento Avançado da Obesidade de Caxias do Sul.